Quando a medicina faz mal ao bolso e ao espírito

Contas hospitalares incompreensíveis e planos de saúde que negam cobertura afetam também a saúde psíquica dos pacientes

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Há cerca de um mês, a mãe de uma amiga querida sofreu um AVC isquêmico e faleceu após alguns poucos dias de internação. Como toda tragédia, o acontecimento pegou a família de assalto.

Ninguém supunha que um mal como aquele acometeria uma mulher aparentemente saudável, de vida ativa. Ninguém tampouco previu o mal-estar adicional que se seguiu à tragédia.

Pretendendo se mudar do país, a família cancelara o plano de saúde há pouco. No afã de buscar o melhor socorro para um ente querido, internaram a mulher em um grande hospital paulistano — o mesmo em que ela se tratara por quase metade da vida. As primeiras cobranças chegaram ainda durante a internação. Hoje, a conta final ultrapassa os R$300 mil. 

É quase impossível, para a maioria da pessoas, compreender os elementos que compõem uma conta de hospital. Na maioria dos casos, essas instituições cobram por cada serviço oferecido ou por cada procedimento realizado durante um tratamento. A simplicidade desse sistema é somente aparente.

Na maioria das vezes, não cabe ao paciente decidir que serviços hospitalares ele vai utilizar. A decisão é exclusividade do médico. Se imprevistos ou erros ocorrem durante o tratamento, ou se um exame é pedido sem necessidade, a conta aumenta.

No caso dos pacientes que contam com plano de saúde, a expectativa é de que decifrar esse emaranhado de valores fique à cargo da empresa. Elas contam com serviços de auditoria anabolizados, prontos a contestar cada cobrança.

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Nem sempre é o que acontece: segundo o Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (IDEC), as negativas de cobertura (quando o plano de saúde se recusa a cobrir os custos de um procedimento ou tratamento) são o segundo problema mais frequente dos consumidores de planos de saúde. Ficam atrás, somente, dos reajustes de mensalidade abusivos.

Nos EUA, essa lógica cruel levou 1,6 milhão de pessoas à falência nos últimos três anos. O número consta em uma pesquisa realizada pelo Commonwealth Fund - uma associação privada que tenta promover a adoção de um sistema de saúde mais eficiente no país— divulgado na semana passada. 

Os pesquisadores examinaram dados nacionais e entrevistaram 1495 pessoas para tentar entender quais os impactos financeiros — e psicológicos — dos custos da saúde na vida da população. A maioria dessas pessoas (90% delas) tinha seguro saúde.

Mas se descobriu desassistida quando tiveram de enfrentar um problema de saúde grave. Casos como câncer, uma doença cardíaca ou um AVC. Restou a elas confrontar uma fatura hospitalar difícil de entender, e ainda mais difícil de pagar. 

Segundo o relatório, cerca de ¼ da população americana enfrenta alguma doença grave. Problemas financeiros sérios afetam mais da metade desse grupo (e das pessoas que cuidam de parentes ou amigos doentes).

Quase 25% dessa população relata que os custos dos cuidados de saúde criam obstáculos para que continuem a bancar necessidades básicas, como comida, moradia e transporte. Em alguns casos, precisam escolher entre pagar a fatura do hospital ou comer. 

Esse tipo de restrição deixa mais que um rombo na conta bancária. Segundo os autores do levantamento, os danos psicológicos são graves: 48% dos doentes ou cuidadores relatam se sentir desesperados ou confusos; 32% disseram se sentir socialmente isolados. 

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O relatório atesta que, para alterar esse quadro, é preciso trabalhar para que todos tenham acesso a cuidados de saúde adequados — no caso dos EUA, defende-se planos de saúde abrangentes, que não abandonem o cliente no momento de maior fragilidade.

Há quem sugira também a necessidade de mudar o sistema de cobrança dos hospitais: nos últimos anos, cresceu a defesa do “pagamento por performance”, que envolve o pagamento de um valor fixo por cada tratamento (sem cobrança adicional no caso de imprevistos), e cujos princípios incluem pagar melhor àqueles hospitais com indicadores melhores (menores índices de reinternação, por exemplo).

O Brasil ainda conta com algumas vantagens nesse setor. Hoje, a maior parte dos tratamentos quimioterápicos, por exemplo — que são caros — são feitos pelo Sistema Único de Saúde. Apesar dos problemas e ineficiências, o SUS ainda garante alguma segurança de que, surpreendida por uma doença grave, a população tem a opção de buscar os cuidados da saúde pública.

Isso não evita, claro, que muita gente seja surpreendida já no decorrer de um tratamento, com uma negativa de cobertura. Nem significa que escolhe mal a família que, querendo o melhor para uma pessoa querida, busca cuidados junto aos médicos que a pessoa sempre frequentou, e nos quais confia. É um impulso natural. Trágico é que isso se traduza em contas impagáveis. E num tormento psicológicos adicional para pessoas já fragilizadas.

Fonte: Epoca