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Lumakras (sotorasibe) pelo plano de saúde: quando há direito à cobertura

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26/10/2026
Foto Lumakras (sotorasibe) pelo plano de saúde: quando há direito à cobertura

A chegada da oncologia de precisão revolucionou o manejo de neoplasias complexas, permitindo que terapias-alvo atuem diretamente sobre mutações genéticas específicas das células tumorais. Um dos principais expoentes dessa evolução é o Lumakras (sotorasibe), medicamento desenvolvido para o tratamento de pacientes com câncer de pulmão de células não pequenas (CPCNP) que apresentam a mutação KRAS G12C.

Apesar de seu alto valor terapêutico e da relevância clínica comprovada, é frequente que pacientes se deparem com barreiras administrativas no momento de obter o fármaco por meio da operadora de saúde suplementar.

Compreender os critérios legais, regulatórios e jurisprudenciais é fundamental para avaliar quando existe o direito líquido e certo à cobertura do tratamento.

 

O papel do registro na ANVISA a questão do Rol da ANS e a relação com as justificativas indevidas pelos planos de saúde

O argumento mais recorrente utilizado pelas operadoras de planos de saúde para justificar a negativa de fornecimento do sotorasibe é a ausência do princípio ativo no Rol de Procedimentos e Eventos em Saúde da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) ou a sua classificação como medicamento de uso oral domiciliar. Contudo, esse entendimento diverge frontalmente da legislação e da jurisprudência atualizada dos tribunais brasileiros.

Para que o paciente exija o custeio de um tratamento antineoplásico, os requisitos centrais estabelecidos pelo marco legal (em especial a Lei nº 14.454/2022) e consolidados pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) envolvem:

  1. Registro sanitário vigente na ANVISA: O Lumakras possui autorização formal de importação e comercialização emitida pela Anvisa, requisito essencial que atesta a segurança e a eficácia do insumo no território nacional.
  2. Amparo científico internacional: A indicação terapêutica deve possuir respaldo em evidências científicas publicadas e recomendação de agências internacionais de reconhecida notoriedade — a exemplo do Food and Drug Administration (FDA) dos Estados Unidos ou da European Medicines Agency (EMA).
  3. Prescrição médica fundamentada: O plano de tratamento deve ser formalmente indicado por médico oncologista habilitado, detalhando a necessidade clínica do fármaco para o quadro específico do segurado.

 

A irrelevância da via de administração e a obrigatoriedade de cobertura para os medicamentos antineoplásicos pelo plano de saúde

Historicamente, as operadoras tentavam desobrigar-se do custeio sob a premissa de que medicamentos orais dispensados em farmácia de alto custo estariam fora da cobertura obrigatória hospitalar. No entanto, o entendimento pacificado no âmbito da 2ª Seção do STJ reafirma a obrigatoriedade de cobertura para os medicamentos antineoplásicos, sejam eles de uso intravenoso ou oral, desde que preenchidos os requisitos legais de registro e indicação técnica.

Requisitos clínicos essenciais para a solicitação

O acesso ao Lumakras não se baseia apenas no diagnóstico genérico da neoplasia, mas na caracterização precisa do perfil molecular do tumor. Para respaldar qualquer pleito administrativo ou judicial, a instrução do prontuário médico exige:

  • Laudo anatomopatológico com teste molecular: É imprescindível a apresentação do laudo comprobatório da presença da mutação KRAS G12C, identificada por meio de testes moleculares validados (como NGS ou PCR).
  • Histórico de tratamentos prévios: conforme as diretrizes de bula e as aprovações regulatórias, o uso do sotorasibe é direcionado a pacientes que já tenham recebido ao menos uma linha de terapia sistêmica prévia.
  • Relatório médico circunstanciado: o profissional deve detalhar a evolução da doença, a ineficácia ou intolerância a terapias anteriores e a urgência na adoção da terapia-alvo.

 

Caminhos para a reversão de negativas indevidas pelo plano de saúde

Diante de uma recusa formal por parte da operadora de saúde, seja sob a justificativa de exclusão contratual, caráter experimental (tese rechaçada judicialmente em virtude do registro definitivo) ou ausência no Rol da ANS, o paciente dispõe de vias de reparação:

  • Esfera administrativa: notificação direta à operadora mediante canal de atendimento e abertura de reclamação perante os órgãos de defesa do consumidor e o portal da própria ANS.
  • Tutela de antecipação de urgência: em razão da natureza progressiva das doenças oncológicas, o Poder Judiciário analisa tais demandas com prioridade por meio de ações com pedido de liminar. Quando instruída com a documentação médica adequada e a comprovação da urgência, a Justiça costuma determinar o fornecimento do medicamento em prazos exíguos (muitas vezes de 24 a 48 horas), salvaguardando a eficácia do tratamento e a integridade do paciente.

 

Perguntas frequentes sobre a cobertura do Lumakras (sotorasibe) pelo plano de saúde

1. O plano de saúde pode recusar o fornecimento do Lumakras sob a alegação de que o medicamento é de uso oral domiciliar?

Não. Embora muitas operadoras utilizem o argumento de que fármacos dispensados em farmácia de alto custo não possuem cobertura obrigatória, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) pacificou o entendimento de que os medicamentos antineoplásicos (quimioterápicos ou terapias-alvo) devem ser custeados pelo plano de saúde, independentemente da via de administração (oral ou intravenosa), desde que haja prescrição médica fundamentada e registro na Anvisa.

2. O fato de o sotorasibe não constar no Rol de Procedimentos da ANS desobriga o plano de saúde?

Não. Conforme a Lei nº 14.454/2022, a ausência de um tratamento no Rol da ANS não impede a sua cobertura obrigatória. Se o medicamento possui registro sanitário válido na Anvisa e amparo em evidências científicas emitidas por agências internacionais de referência (como FDA ou EMA), a operadora tem o dever legal de custodiá-lo quando prescrito para o tratamento oncológico indicado.

3. Quais exames e laudos são indispensáveis para solicitar o Lumakras?

Para instruir adequadamente o pedido administrativo ou a ação judicial, o paciente deve apresentar:

  • Laudo médico circunstanciado detalhando o diagnóstico, o histórico de tratamentos prévios e a urgência do uso da terapia-alvo;

  • Laudo anatomopatológico ou teste molecular (como NGS ou PCR) que comprove de forma inequívoca a presença da mutação KRAS G12C;

  • Receita médica atualizada com a posologia recomendada.

4. O que fazer se o plano de saúde emitir uma negativa formal de cobertura?

Diante de uma recusa indevida — muitas vezes fundamentada em diretrizes de utilização restritivas ou exclusão contratual —, o beneficiário pode buscar a reversão por meio de medida judicial com pedido de liminar (tutela de urgência). Dada a natureza progressiva das doenças oncológicas, o Poder Judiciário costuma apreciar esses pedidos com alta prioridade, determinando judicialmente o fornecimento do fármaco em curto prazo para preservar a eficácia do tratamento.

Atenção: Este conteúdo tem finalidade exclusivamente informativa. Não substitui orientações médicas ou jurídicas individualizadas. Para decisões sobre tratamentos ou medidas legais, consulte um profissional qualificado.

 

TATIANA KOTA

Tatiana Kota, advogada do Vilhena Silva Advogados

Conteúdo publicado em: 13/08/2025
Conteúdo atualizado em: 26/10/2026
Autoria técnica: Tatiana Kota, advogada do Vilhena Silva Advogados – OAB: 238.323
Revisão jurídica: Equipe Vilhena Silva Advogados

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